O que a polícia não conseguiu desvendar no desaparecimento da família Aguiar no RS
20/04/2026
(Foto: Reprodução) Família Aguiar: PM e outros 5 são indiciados pela Polícia Civil
Mesmo com a conclusão do inquérito que apurou o desaparecimento da família Aguiar, a Polícia Civil não conseguiu elucidar todos os pontos do caso.
🔎 Silvana de Aguiar, 48 anos, e os pais dela, Isail, de 69, e Dalmira Germann de Aguiar, de 70, não são vistos há mais de 80 dias. O policial militar Cristiano Domingues Francisco foi indiciado por feminicídio, dois homicídios triplamente qualificados, ocultação de cadáver e outros crimes.
Enquanto o Ministério Público analisa se oferece denúncia, algumas lacunas seguem sem respostas, mesmo quase três meses após o desaparecimento. Os corpos dos três familiares não foram encontrados, assim como o Volkswagen Fox vermelho que teria sido utilizado no crime. A causa das mortes também permanece um mistério.
Localização dos corpos
Os corpos de Silvana, Isail e Dalmira nunca foram encontrados. Ao longo de cerca de 80 dias, a polícia realizou buscas em diversas localidades, inclusive com a ajuda de cães farejadores. Porém, ainda não se sabe o paradeiro da família.
“Nenhuma informação foi descartada, todas foram verificadas no Litoral, na Serra, na Região Metropolitana (de Porto Alegre). Mas, de fato, a gente não conseguiu até então uma localização precisa”, declarou o delegado Diego Traesel, diretor da Divisão de Inteligência Policial e Análise Criminal.
O ponto focal das buscas foi em um área rural em Gravataí, na mesma região que também se localiza um sítio pertencente a um familiar de Cristiano.
De acordo com a polícia, a atuação dos suspeitos — Cristiano e outros cinco — após o suposto crime teria dificultado os trabalhos de busca. Isso teria impedido uma atuação rápida para localizar os desaparecidos.
“Houve um tempo para a preparação do pós-crime, e isso nos prejudicou bastante. Houve uma busca por uma pessoa supostamente desaparecida e já reaparecida. O direcionamento da ação policial para localizar pessoas na Serra e esse espaço temporal nos prejudicou”, declarou o delegado.
Segundo as investigações, Cristiano teria usado inteligência artificial para simular a voz de Silvana, inventando um acidente na Serra Gaúcha que nunca aconteceu. Isso despistou a polícia e impediu avanços em momentos de crucial importância.
“A gente fez buscas nas câmeras do entorno (das casas de Silvana e dos pais), mas algumas gravavam apenas 24 horas, 48 horas, e ali já havia transcorrido três, quatro dias. Isso nos prejudicou e nos impede hoje de dizer com mais precisão onde possam estar os corpos”, explicou Traesel.
As mortes
Mesmo sem os corpos, a polícia afirma ser remota a chance de que Silvana, Isail e Dalmira possam estar com vida e trata o caso como um feminicídio e um duplo homicídio triplamente qualificado.
Outra interrogação que fica no caso da família Aguiar é como ocorreram as mortes. Os trabalhos investigativos descartam as hipóteses do uso de arma de fogo ou de arma branca.
“Essa constatação não é possível, pela ausência dos corpos, saber exatamente qual foi o instrumento empregado para efetivar a morte. O que a gente consegue deduzir e afirmar é que, pelos achados do perito no local do crime, não havia respingos de sangue com padrão de uso de arma branca ou de uso de arma de fogo”, afirmou o delegado Anderson Spier, titular da 1ª Delegacia de Polícia Regional Metropolitana, que desde os primeiros momentos atua no caso.
Investigadores encontraram sangue na residência de Silvana, e análise de laboratório concluiu que a amostra pertencia a ela e ao pai, Isail. Porém, seria em pequena quantidade, incompatível com morte por arma branca ou de fogo.
Os policiais acreditam que as mortes possam ter ocorrido por asfixia.
“A hipótese que mais se ajusta nesse caso seria de uma asfixia, provavelmente por esganadura. O autor é forte e alto. As vítimas todas são pessoas de média estatura, dois idosos, inclusive. Seria muito fácil para ele fazer o sufocamento deles. Essa tem sido a provável forma com que ele efetivou a morte dos três”, disse Spier.
“Esse sangue encontrado, que não foi em razão de uma perfuração, nada que tivesse espirrado. A probabilidade é que o asfixiado tenha caído no chão e batido a cabeça ou cortado a boca de alguma forma. São detalhes que não conseguimos efetivamente afirmar pela ausência dos corpos”, completou.
Spier ainda descarta a hipótese de que tenha havido uma luta corporal tanto na casa de Silvana quanto na casa de Isail e Dalmira.
“Não houve barulho, não houve luta corporal. O perito não vislumbrou luta corporal, desalinhamento, nada que chamasse a atenção e que pudesse atestar isso. Por isso, toda a nossa conclusão é no sentido de uma morte de uma maneira silenciosa”, ressaltou o delegado.
O Fox vermelho
O Volkswagen Fox vermelho é uma peça central para a trama. O inquérito dá conta de que este seria o carro utilizado por Cristiano para ir até as casas de Silvana e dos pais, onde supostamente teria cometido os crimes. O veículo também serviria para o transporte e posterior ocultação dos corpos, segundo a apuração.
A questão é: assim como os corpos, o Fox vermelho também nunca foi encontrado.
“Realizamos diversas e variadas de inteligências para tentar localizar esse veículo. Efetivamente, ele não foi localizado. Podemos dizer que foi o veículo utilizado para a retirada dos corpos. Provavelmente, tomaram o cuidado de esconder evidências”, disse o delegado Anderson Spier.
Segundo ele, é possível ligar o veículo diretamente a Cristiano. “Uma das extrações de uma nuvem escondida, que era do Cristiano, nós localizamos fotos dele com o veículo Fox, igual das imagens.”
“Acreditamos que ele pode ter descartado, picado, entregue para alguém, desmanchado, escondido, ou até pode ter sido consumido junto com os corpos. É uma possibilidade que existe, de ter sido jogado em um leito de água e afundado junto com os corpos dentro. Então, infelizmente, conseguimos entender que o Fox foi importante na execução do crime, mas até por causa dessa importância ele foi descartado”, concluiu Spier.
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Cronologia dos desaparecimentos
Os delegados responsáveis pelo caso entendem que Silvana foi morta entre a noite e a madrugada de 24 de janeiro em sua casa. Câmeras de monitoramento flagraram movimentações suspeitas de veículos.
Câmera registra movimentação de veículos na casa de família desaparecida no RS
Um Volkswagen Fox vermelho é visto na residência entre 20h33 e 20h41. A polícia identificou que, neste momento, um celular que seria vinculado ao Cristiano se concectou na rede de wi-fi da moradia.
Após, às 21h28, um Ford Ka branco que seria de propriedade de Silvana ingressa no local e não sai mais. Nesse momento, o celular de Silvana também teria se conectado à rede. Às 23h32, o Fox vermelho retorna e sai às 23h45. Quando isso acontece, o celular de ambos se desconecta do wi-fi.
A polícia concluiu que Cristiano e Silvana estiveram no local no mesmo momento naquela noite e que Silvana teria sido morta em casa.
Às 3h19 da madrugada do dia 25, o Fox vermelho retornou brevemente à residência, para ir embora poucos minutos depois, às 3h22.
Uso de IA
Segundo as investigações, Cristiano teria utilizado inteligência artificial para simular a voz de Silvana e atrair seu pai, Isail, para a casa dela. O homem de 70 anos chega na casa às 16h28. Minutos depois, às 16h48, apenas Cristiano deixa o local.
A polícia aponta que ele teria novamente usado uma voz simulada de Silvana para entrar na casa do pais dela, onde teria encontrado a mãe, Dalmira. O casal não é visto desde então.
“Foi um crime tão bem planejado. Percebemos que essa montagem teatral para a atração dos idosos, ele já foi criado no dia 21, dias antes do fato. Ele prepara um telefone para utilizar neste crime, e prepara o pós-crime também, porque o telefone utilizado efetivamente como verdadeiro dele some dias depois, sob o pretexto de um acidente”, aponta o delegado Diego Traesel.
Cristiano Domingues Francisco, suspeito no desaparecimento da família Aguiar
Renan Mattos / Agencia RBS
Outros indiciamentos pela Polícia Civil
Outras cinco pessoas também foram indiciadas pela Polícia Civil: a atual esposa do PM, por fraude processual, ocultação de cadáver, furto qualificado e associação criminosa; o irmão dele, por fraude processual, ocultação de cadáver e associação criminosa; a mãe e a sogra do PM por fraude processual e associação criminosa; e um amigo do PM, por falso testemunho, fraude processual e associação criminosa.
“Não encontramos subsídios de que os demais envolvidos tenham participado antes dos crimes. A materialização da conduta deles foi no sentido de tentar isentar o Cristiano daquela suspeita que recaía sobre ele”, disse o delegado Anderson Spier.
A polícia chegou a pedir a prisão preventiva de três desses suspeitos, além de Cristiano, mas foi negado pelo Tribunal de Justiça.
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Inquérito da Polícia Civil tem 20 mil páginas
A Polícia Civil aponta que a motivação do crime seria a disputa pela criação do filho do PM com Silvana, além de questões financeiras ligadas ao patrimônio da família Aguiar.
De acordo com a polícia, o inquérito tem 20 mil páginas entre depoimentos, diligências, relatórios, extrações e quebras de sigilo, que resultaram em mais de 10TB de documentos. Foram 16 celulares apreendidos, 17 nuvens de documentos (e-mails), cinco DVRs, 13 pendrives, cinco computadores e quatro HDs.
"Pessoas envolvidas tinham conhecimento de tecnologia policial. O autor do fato chegou a ter três telefones ativos. Criou telefone com ar de idoneidade com objetivo de atrasar as investigações e desviar o foco dele. Foi um crime tão bem planejado, ele faz uma preparação para o crime e prepara o pós crime também" , afirmou o delegado Diego Traesel.
Além disso, houve cinco prisões, 14 mandados de busca e apreensão e 37 quebras de sigilo. Nas oitivas, foram interrogados 6 suspeitos, 34 declarações de testemunhas e uma escuta sem dano.
Nesta semana, a perícia confirmou que o sangue encontrado na residência de Silvana pertencia a ela e ao pai dela.
"Eu sei que se criou esse mito de que sem a presença dos corpos não há materialidade, mas, na verdade, a gente já tem um vasto conteúdo que aponta no sentido de que a materialidade pode ser provada de forma indireta", afirmou o delegado Anderson Spier. "A prova disso, inclusive, é a decretação da prisão preventiva do autor, porque a prisão preventiva imprescinde da materialidade."
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Reprodução/RBS TV
O que dizem as defesas
➡️ Cristiano Domingues Francisco: "A Defesa de Cristiano aguarda o encaminhamento do inquérito, sendo que, pela finalização das investigações, deverá ter acesso amplo e irrestrito a todos os procedimentos cautelares que se encontram em segredo de justiça, possibilitando um posicionamento mais assertivo."
➡️ Milena Ruppenthal Domingues (mulher de Cristiano), Paulo da Silva (amigo de Cristiano), Maria Rosane Domingues Francisco (mãe de Cristiano) e Ivone Ruppenthal (sogra de Cristiano):
"A defesa de Milena, Paulo, Maria Rosane e Ivone informa que, ao longo do regular trâmite processual, será devidamente demonstrada — com a garantia do contraditório e da ampla defesa — a inocência dos envolvidos, bem como a fragilidade dos indícios apresentados no inquérito policial.
Ressalta-se, ainda, que serão levadas ao conhecimento do Poder Judiciário as irregularidades ocorridas durante a investigação, somadas a eventuais abusos praticados, os quais serão oportunamente apurados pelos meios legais cabíveis.
A defesa reitera sua confiança na Justiça e no devido processo legal, certos de que os fatos serão esclarecidos de forma técnica e fundamentada.
Declaram-se absolutamente inocentes das acusações."
➡️ Wagner Domingues Francisco (irmão de Cristiano): "A Defesa técnica de WAGNER DOMINGUES FRANCISCO, com o senso de responsabilidade que o momento exige, vem a público manifestar-se acerca do Inquérito Policial que apura as circunstâncias envolvendo o desaparecimento da família Aguiar, no município de Cachoeirinha/RS.
A Defesa tomou conhecimento, exclusivamente por intermédio da mídia e de coletiva de imprensa, da existência de 37 medidas cautelares, além de buscas, apreensões e indiciamentos, sem que lhe tenha sido assegurado, até o presente momento, acesso aos respectivos expedientes, circunstância que impede o pleno conhecimento das teses investigativas.
Importa destacar que as imputações até então divulgadas consistem, neste estágio, em meras hipóteses investigativas, ainda não submetidas ao contraditório, sendo o inquérito policial, por sua natureza, procedimento de caráter unilateral.
Reitera-se, por fim, que WAGNER DOMINGUES FRANCISCO sempre esteve, e assim permanecerá, à inteira disposição das autoridades. A Defesa aguarda o acesso integral aos elementos de prova para manifestação oportuna e aprofundada, confiante de que o devido processo legal conduzirá ao pleno esclarecimento dos fatos, com a consequente demonstração de sua inocência e a prevalência da Justiça."
Silvana Germann de Aguiar, Dalmira Germann de Aguiar e Isail Vieira de Aguiar
Imagens cedidas/Polícia Civil
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